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A Soberania do Erro: Reflexões sobre Poder, Sociedade e Consciência

A soberania que deveria proteger o povo tornou-se instrumento de dominação, corrupção e controle. Quando o poder emana de uma sociedade moralmente adoecida, quem realmente governa? Uma reflexão crítica, filosófica e espiritual sobre o erro.

No mundo atual, conceitua-se soberania como o poder supremo, absoluto e independente de um Estado para governar seu território e povo sem interferências externas, sendo esse um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Refere-se à capacidade de criar leis próprias e à autonomia internacional, além de abranger a soberania popular, onde o povo é o titular do poder.

 

Esse conceito parece algo muito bom — o povo tem o poder — mas, na prática, não é bem assim. Elegemos pessoas do nosso meio, pessoas em quem acreditamos e confiamos, para resolver os problemas sociais, decidir o que é certo ou errado e controlar nossas próprias vidas, e ainda assim achamos que detemos o poder. Essas mesmas pessoas que escolhemos, muitas vezes ou quase sempre, fazem o que bem entendem; agem em conluio com outros eleitos para benefícios próprios ou de terceiros, com a promessa de angariar dinheiro fácil, sem nenhuma preocupação com o dever e o compromisso assumido com a população.

 

A soberania não pode ser representada pela mesma razão que não pode ser alienada; ela consiste essencialmente na vontade geral, e a vontade não se representa. — Jean-Jacques Rousseau [1]

 

Segundo o conceito de soberania, o poder emana do povo. Ou seja, o poder vem do povo e deveria ser por ele retirado assim que os representantes eleitos se desviassem do projeto proposto, agissem de forma imoral ou praticassem qualquer crime. Mas isso não ocorre; há um processo dificultoso e cada vez mais moroso para que a justiça seja feita. Aliás, a justiça em nosso país enfrenta crises profundas de credibilidade, sendo frequentemente questionada em rankings internacionais de percepção de corrupção.

 

Mas o que seria a soberania? Um cercado virtual que alguém delimitou e disse que ali ele é o "poderoso chefão"? Uma área delimitada para ele fazer o que bem entender? É o que parece ser em países com níveis de corrupção altíssimos. Mas há um ponto que poucas pessoas discutem: tratamos a soberania como propriedade, como se cada "reizinho" com faixa no peito ou coroa na cabeça fosse dono de uma parte do planeta. Tratamos o todo como fragmentos isolados, achando que é possível jogar nosso lixo pela janela sem afetar o restante do mundo.

Os reizinhos, eleitos ou não, não se importam com o que ocorrerá com o lixo. Achamos que é só "jogar fora", mas fora de onde? É possível jogar fora da residência onde moramos, mas nossa casa é o planeta e tudo o que se joga fora reverbera no todo — assim como os acidentes com usinas nucleares, rompimentos de barragens de rejeitos de minério, guerras biológicas ou até mesmo os produtos químicos utilizados nos plantios. Tudo neste mundo está conectado; não deveriam tratar os problemas como situações isoladas, cada um em seu cercadinho imaginário.

 

A Terra é um barco imenso. Se um passageiro resolve furar o casco sob o seu assento, alegando que o lugar lhe pertence, o naufrágio será de todos. — Divaldo Franco (pelo espírito Joanna de Ângelis) [2]

 

O homem e sua ganância por poder — o que inclui dinheiro e bens materiais — fecha os olhos para o bem maior. A pretexto de exercer a soberania, enche os países de exércitos e soldados que, em muitos casos, são usados contra a própria população quando esta se revolta contra os eleitos ou ditadores que tomaram o poder que deveria emanar do povo.

Observa-se nitidamente que a soberania é usada para perpetuar o erro. O Estado cria diversas dificuldades para o povo trabalhar e se sustentar com dignidade, apenas para "vender", em troca de altíssimos impostos, algumas migalhas de assistencialismo barato às custas da massa de trabalhadores. Nesse contexto, as forças de segurança são, por vezes, controladas por leis e ordens que impedem manifestações contrárias ao sistema. Qualquer tentativa de mudar a dura realidade acaba, muitas vezes, sendo sufocada.

 

Observa-se também um retrocesso intelectual nas últimas décadas. Apesar da quantidade de informações fáceis, parece que as pessoas estão consumindo conteúdos inúteis para suprir a necessidade de dopamina barata e rápida, deixando de lado os estudos e a autoanálise. Não criticam, não pensam antes de agir. Parece que vivenciamos uma geração "lobotomizada", que aprendeu que a Terra é redonda, mas ainda assim joga dejetos no rio e depois vai à praia reclamar da água suja.

 

A corrupção moral de uma nação faz cair seu governo, mas o líder sábio e prudente traz estabilidade. — Provérbios 28:2 [3]

 

Defende-se a corrupção de um político condenado enquanto se aponta o dedo para políticos de outros países sem conhecer aquela realidade. O povo defende uma soberania que está doente, contaminada e corrompida por criminosos de colarinho branco, transvestidos de cordeiros. A soberania acaba sendo usada apenas para impor a força contra aqueles que despertam contra o sistema falido de "cerquinhas imaginárias".

 

Essa soberania diz quem pode ter casa, quem pode furar um buraco, quem pode captar a energia do Sol, quem pode trabalhar e com o que trabalhar. Uma soberania que age contra o próprio povo, e este ainda assim a defende. Seria uma espécie de Síndrome de Estocolmo, alienação mental ou identificação moral com os representantes? Ou seja: a maioria é corrupta e faria igual ou pior se estivesse lá?

 

Se olharmos para o ano de 2017, quando a Polícia Militar do Estado do Espírito Santo parou, centenas de pessoas morreram vítimas de criminosos e dezenas de lojas foram saqueadas por pessoas consideradas "trabalhadoras" e "honestas". Podemos perceber claramente o princípio do Panóptico falhando: quando os indivíduos perdem o medo de estarem sendo vigiados, agem sem freios morais. Isso revela que as pessoas podem não ser tão íntegras quanto dizem ser; a ausência de vigilância externa expõe a fragilidade da vigilância interna (a consciência).

 

O homem é o que é perante a sua consciência e perante Deus. O resto é sombra. — Chico Xavier (pelo espírito Emmanuel) [4]

 

O que nos leva a pensar nos políticos e na soberania: se o poder emana de um povo que ainda carrega falhas morais profundas, os políticos acabam sendo o espelho desse povo. Como eles controlam os vigias, quem os vigia de fato? A resposta pode ser óbvia, mas os impactos na vida das pessoas são incalculáveis.

Mensagem Final: A Soberania da Consciência

Baseando-nos nos princípios da Doutrina Espírita, compreendemos que a verdadeira soberania não reside em fronteiras geográficas ou decretos humanos, mas na Lei de Justiça, Amor e Caridade. Enquanto a humanidade buscar a liberdade apenas nas leis externas, continuará escrava de suas próprias imperfeições. A reforma da sociedade é inseparável da reforma íntima de cada indivíduo. Como nos ensina a espiritualidade superior, o progresso das leis humanas é sempre o reflexo do progresso moral dos homens. Somente quando a honestidade for um valor interno e não uma imposição do medo, teremos representantes que honrem a confiança neles depositada. A mudança que esperamos no "trono" do poder começa no governo que exercemos sobre nossas próprias inclinações.

 

Nova Venécia, 28 de janeiro de 2026.

 

Muita paz,

Rafael Cremasco Lacerda



 

Referências

1.ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. Disponível em: eBooksBrasil - PDF

2.FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). O Homem Integral. Disponível em: CE Allan Kardec - PDF

3.BÍBLIA SAGRADA. Livro de Provérbios, Capítulo 28, Versículo 2. Disponível em: Bíblia Online

4.XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL (Espírito). Vinha de Luz. Disponível em: Portal do Espírito - PDF

5.KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 794 a 797 (O Progresso da Legislação Humana). Disponível em: FEBnet - PDF