PUBLICAÇÕES Incompreensões da Vida A volta dos mortos-vivos
Alguns parentes não somem: apenas aguardam o momento certo para voltar. Disfarçados de família, alimentam-se da discórdia, da inveja e da dor alheia. Quem são esses “mortos-vivos” que ressurgem para puxar você para trás?
Quem não tem — ou já não teve — aquele parente que nada acrescenta à sua vida, a não ser o peso constante de te puxar para trás? Gente que desaparece por anos, mas reaparece pontualmente quando há algo a se aproveitar. Essa é uma realidade silenciosa, porém comum, em praticamente todas as famílias.
São pessoas que, para nós, morreram em vida. Não fisicamente, mas moral e espiritualmente. Permanecem ali, à margem, vegetando, observando, colhendo informações, aguardando o momento oportuno para “ressuscitar” e despejar tudo o que carregam de ressentimento, inveja e podridão interior. São almas recrudescidas no mal, que se recusam sistematicamente a contribuir com o bem, pois o bem lhes incomoda e denuncia suas próprias sombras.
Quem nunca presenciou aquele almoço de domingo em família — outrora símbolo de união — que terminava em discussões absurdas, brigas por motivos fúteis ou disputas veladas? Em famílias com posses, o cenário costuma ser ainda mais tóxico: bajulações interesseiras, disputas silenciosas e jogos de poder para herdar mais, ou herdar antes. O dinheiro, que é necessário à vida material, transforma-se, quando em excesso e sem consciência, em uma prova severa. Não raro, a simples promessa de uma herança se converte em um verdadeiro inferno na vida dos futuros herdeiros.
Esses “mortos-vivos” surgem, muitas vezes, não apenas para perturbar, mas para abreviar a paz, a saúde e até a vida daqueles que tentam seguir um caminho mais reto. São movidos pela cobiça, pela inveja, pela vingança e por outras mazelas morais profundas. Também tive — e ainda tenho — um bando desses mortos-vivos em minha trajetória. Enquanto isso, viviam suas vidas de ostentação e aparente “riqueza”. Mas dinheiro nunca é suficiente para quem está vazio por dentro.
Os mortos-vivos até possuem senso de justiça — porém um senso completamente distorcido, moldado exclusivamente para beneficiar a si mesmos. Alimentam-se do sofrimento alheio. Sentem prazer em nos ver afundados na lama junto deles, pois a ascensão do outro os confronta com a própria miséria interior.
Vivem, essencialmente, para arrastar pessoas de bem para o seu exército de sofredores: enfermos morais, inconscientes, que já não percebem o quanto se comprazem no mal que espalham. Contra esse tipo de influência, não basta apenas bondade ingênua; é preciso lucidez, limites e profundo cuidado com a própria saúde emocional e espiritual.
Famílias, provações e o discernimento espiritual
A Bíblia é repleta de exemplos de famílias dilaceradas por pessoas dominadas pelo ímpeto do ego, da inveja e da cobiça. Desde o primeiro fratricídio, quando Caim mata Abel por não suportar ver o bem florescer no outro, fica claro que o problema não é a família em si, mas o estado moral das almas que nela convivem.
José do Egito foi traído pelos próprios irmãos, vendido como escravo por inveja e ressentimento. Davi foi perseguido por Saul, que não suportava o brilho daquele que Deus escolheu. Judas conviveu com Jesus, ouviu seus ensinamentos, testemunhou milagres, mas permaneceu fechado no egoísmo. A proximidade com o bem não transforma quem se recusa a mudar.
Essas narrativas mostram que o sangue não purifica o caráter e que laços familiares, quando não acompanhados de maturidade espiritual, podem se tornar campos de provas dolorosas. Nem todos que caminham ao nosso lado desejam nossa evolução; alguns, infelizmente, sentem-se ameaçados por ela.
Perdão não é submissão: a lucidez segundo Rossandro Klinjey
O psicólogo e escritor Rossandro Klinjey é enfático ao afirmar que:
“Perdoar não é esquecer, nem permitir que o outro continue nos ferindo. Perdão é interromper o ciclo do ódio dentro de si.”
Ele lembra que, especialmente no contexto familiar, muitas pessoas confundem perdão com obrigação de convivência. Segundo Rossandro, perdoar é um movimento interno de libertação, enquanto conviver exige segurança emocional, respeito e limites claros.
“Você pode perdoar alguém e ainda assim decidir não conviver com essa pessoa. Perdão não é reconciliação forçada.”
Essa compreensão é fundamental para quem lida com familiares de ímpeto ruim, manipuladores, invejosos ou abusivos. O Evangelho não pede que sejamos cúmplices do mal, mas que não nos tornemos iguais a ele.
Almas sofredoras e influências negativas — Divaldo Pereira Franco
Nos livros psicografados por Divaldo Pereira Franco, especialmente sob a orientação de Joanna de Ângelis e Manoel Philomeno de Miranda, encontramos inúmeros relatos de almas sofredoras que, ainda presas às paixões humanas, buscam arrastar outros para o mesmo padrão vibratório.
Esses espíritos, muitas vezes, estão ligados por laços familiares do passado e do presente. Não aceitam o progresso alheio porque isso evidencia a própria estagnação. Alimentam-se da discórdia, da inveja e do ressentimento, encontrando sintonia em encarnados que vibram nas mesmas faixas emocionais.
Divaldo alerta que o maior perigo não é a obsessão espiritual em si, mas a abertura moral que damos quando nutrimos mágoas, ódio e desejo de vingança. A vigilância interior, o silêncio prudente e a oração sincera são formas de romper esse vínculo invisível.
A missão da família e o convívio difícil — Chico Xavier
Chico Xavier sempre ensinou que a família é, antes de tudo, um grupo de espíritos reunidos por afinidade e por necessidade de reajuste. Nem sempre estamos juntos porque nos amamos; muitas vezes estamos juntos porque precisamos aprender.
Em diversas obras, como Vida e Sexo, Família e Pão Nosso, ele reforça que nem todos os familiares conseguirão acompanhar nosso esforço de crescimento moral. Alguns permanecerão presos a vícios, ressentimentos e atitudes destrutivas.
Chico era claro ao dizer que amar não é se anular. Ele aconselhava:
“Ajude sempre que puder, mas não se deixe afundar junto.”
A verdadeira missão da família não é manter aparências, mas favorecer a evolução do espírito, ainda que isso exija afastamentos temporários ou definitivos.
O consolo do Evangelho Segundo o Espiritismo
No Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV — Honrai vosso pai e vossa mãe — Kardec esclarece que honrar não significa submeter-se a abusos ou aceitar injustiças. O respeito verdadeiro nasce do coração equilibrado, não do medo nem da culpa.
No capítulo X — Bem-aventurados os misericordiosos — aprendemos que perdoar não é estimular o erro, mas libertar-se do ódio. A misericórdia começa quando cessamos a guerra interior.
O Evangelho consola ao lembrar que nenhuma dor é eterna e que toda convivência difícil tem prazo e propósito. O que hoje é espinho, amanhã será lição assimilada.
Sabedorias de outras tradições espirituais
Hinduísmo e Budismo
No Bhagavad Gita e nos ensinamentos budistas, o apego às relações tóxicas é visto como fonte de sofrimento. O desapego não é abandono cruel, mas libertação consciente. Permanecer onde há dano constante é alimentar o samsara — o ciclo do sofrimento.
Islamismo
No Alcorão, há a orientação de manter a justiça mesmo contra si próprio ou parentes próximos. O Islã valoriza a família, mas não legitima a injustiça nem a corrupção moral em nome dos laços sanguíneos.
Tradições africanas
Nas matrizes africanas, especialmente no Candomblé e na Umbanda, ensina-se que a ancestralidade não é permissão para o desequilíbrio. Espíritos perturbados devem ser esclarecidos, não seguidos. O axé não flui onde há inveja, intriga e desarmonia persistente.
Mensagem final de Joanna de Ângelis
Joanna de Ângelis nos oferece um consolo profundo e atual:
“Não te sintas culpado por escolher a paz. Amar não é permanecer no sofrimento, mas desejar o bem, mesmo à distância. Cuida de tua luz, porque muitos se perdem na própria sombra.”
Ela nos lembra que preservar a saúde emocional e espiritual é um dever, não um egoísmo. O bem começa dentro, e ninguém evolui sendo arrastado para o lodo alheio.
Nova Venécia, 19 de dezembro de 2025.
Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências para pesquisa
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Allan Kardec – O Evangelho Segundo o Espiritismo
https://kardecpedia.com -
Divaldo Pereira Franco – Obras diversas (Joanna de Ângelis / Manoel Philomeno de Miranda)
https://www.mansao.org.br -
Chico Xavier – Obras psicografadas
https://www.febnet.org.br -
Rossandro Klinjey – Palestras e livros sobre perdão e relações familiares
https://www.rossandroklinjey.com.br -
Bhagavad Gita – Traduções comentadas
https://www.bhagavadgita.org -
Alcorão Sagrado
https://quran.com
Todas as referências acima são provenientes de obras clássicas, editoras oficiais e portais reconhecidos no estudo do Espiritismo, do Evangelho e da espiritualidade universal.