PUBLICAÇÕES Incompreensões da Vida Dingo Bell acabou o papel
Entre paródias infantis, fé, política e consumo, o Natal revela mais do que celebra: expõe omissões, distrações e responsabilidades morais. Afinal, o Natal desperta consciências ou apenas adormece a verdade?
“Dingo bell, dingo bell, acabou o papel,
não faz mal, limpa com jornal.”
A paródia, aparentemente ingênua e infantil, talvez carregue mais significado do que se imagina à primeira vista. O riso fácil, o deboche e a inversão do sagrado em piada revelam algo profundo sobre a forma como a sociedade aprende a lidar com símbolos, escassez e desconfortos. O “acabou o papel” não é apenas uma brincadeira: pode ser lido como metáfora da falta, da precariedade, da adaptação forçada à ausência do básico. Limpa-se “com jornal”, isto é, com a informação descartável, com aquilo que embrulha a realidade, mas não resolve o problema.
O Natal, assim como seus símbolos, também pode ser usado como embalagem. Historicamente ressignificado, culturalmente adaptado e economicamente explorado, ele se tornou um poderoso instrumento de narrativa. Luzes, músicas repetidas, campanhas emocionais e discursos de união criam um clima de suspensão temporária da realidade. Nesse período, fala-se de esperança, mas pouco se discute sobre as estruturas que produzem o desespero. Exalta-se o amor, mas ignora-se a injustiça que o torna urgente.
Sob uma ótica política, o Natal pode — e muitas vezes é — instrumentalizado como mecanismo de distração coletiva. Enquanto as massas são conduzidas a consumir, presentear e celebrar, questões centrais como desigualdade social, miséria, desemprego, corrupção estrutural e ausência de políticas públicas eficazes ficam momentaneamente fora do foco. O espetáculo substitui o debate, a emoção ocupa o lugar da consciência crítica, e a caridade pontual passa a funcionar como paliativo moral para problemas que exigiriam coragem política e transformação estrutural.
Não é coincidência que discursos de “paz” e “harmonia” sejam amplamente difundidos justamente em um mundo marcado por conflitos fabricados, exploração econômica e concentração de poder. A narrativa do “espírito natalino” pode servir tanto para elevar consciências quanto para anestesiá-las. Tudo depende de quem a conduz — e com qual intenção.
Nesse ponto, a responsabilidade moral se torna inescapável, especialmente para líderes políticos e religiosos. A própria Bíblia é contundente ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tiago 2:17), e que a quem muito foi dado, muito será cobrado (Lucas 12:48). Não se trata apenas de crença, mas de compromisso ético com a verdade e com a justiça.
Jesus, cuja figura simbólica sustenta o Natal, não se omitiu diante do poder. Ele denunciou a hipocrisia dos líderes religiosos de seu tempo, advertindo que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sem praticar a vontade do Pai (Mateus 7:21). Também foi direto ao afirmar que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mateus 6:24), colocando a responsabilidade moral acima de qualquer conveniência política ou econômica.
Quando o discurso religioso se afasta da verdade para preservar privilégios, ele deixa de ser espiritual e passa a ser instrumento de dominação. Quando o poder político se apropria da fé para justificar injustiças ou silenciar consciências, ele corrompe tanto a política quanto a religião.
Nesse mesmo sentido, Joanna de Ângelis — pela psicografia de Divaldo Pereira Franco — alerta que a verdadeira espiritualidade se expressa no comportamento moral, e não na aparência externa da fé. Em suas reflexões, ela destaca que o ser humano amadurecido espiritualmente não terceiriza a responsabilidade, compreendendo que cada escolha gera consequências individuais e coletivas. Para ela, não há evolução sem enfrentamento consciente da própria omissão.
Joanna também adverte que o conformismo é uma das formas mais sutis de violência moral, pois perpetua estruturas adoecidas sob o disfarce da aceitação passiva. A transformação interior, segundo ela, exige lucidez, coragem e disposição para agir de modo coerente com os valores que se professam.
Essa noção de responsabilidade moral atravessa diversas tradições religiosas e filosóficas. No judaísmo, o conceito de Tikkun Olam ensina que o ser humano tem o dever de “consertar o mundo”, assumindo participação ativa na justiça social. No islamismo, o Alcorão enfatiza que Deus não muda a condição de um povo enquanto ele não muda a si mesmo, apontando a responsabilidade coletiva pelas realidades construídas.
No budismo, a coragem ética se manifesta no Caminho Óctuplo, especialmente na ação correta e no meio de vida correto, que exigem consciência social e não apenas iluminação individual. Já no hinduísmo, o dharma representa o dever moral de agir corretamente, mesmo quando isso implica sacrifícios pessoais.
Em todas essas tradições, há um ponto comum: não existe espiritualidade autêntica sem responsabilidade moral. Não existe fé verdadeira que se acomode à injustiça. Não existe iluminação que ignore a fome, a miséria e a exclusão.
É aqui que a coragem volta a se impor como virtude essencial. Coragem para dizer a verdade quando o silêncio é mais confortável. Coragem para romper com narrativas que infantilizam o povo e transformam a caridade em espetáculo. Coragem para assumir que mudanças reais exigem enfrentamento, renúncia e escolhas difíceis.
O Natal, se levado a sério, deixa de ser apenas celebração e se torna confronto ético. Ele pergunta, de forma incômoda, se estamos dispostos a assumir nossa parte na construção — ou na manutenção — das injustiças que fingimos lamentar. Ele revela que não basta emocionar-se com a manjedoura, se continuamos indiferentes aos que dormem ao relento.
Entre paródias infantis, símbolos religiosos, interesses econômicos e discursos políticos, o Natal permanece como um chamado silencioso, porém insistente: ou ele desperta consciências, ou serve para adormecê-las.
E talvez o verdadeiro sentido do Natal não esteja no que se diz sobre ele, mas no que se tem coragem de fazer depois que as luzes se apagam…
Nova Venécia, 25 de dezembro de 2025.
Muita paz e coragem,
Rafael Cremasco Lacderda
Referências (com links)
1. Bíblia Sagrada – Cristianismo
Bíblia Online (Almeida / NVI / ARA)
https://www.bibliaonline.com.br
Trechos citados:
-
Lucas 12:48
https://www.bibliaonline.com.br/ara/lc/12/48 -
Mateus 7:21
https://www.bibliaonline.com.br/ara/mt/7/21 -
Mateus 6:24
https://www.bibliaonline.com.br/ara/mt/6/24 -
Isaías 1:16–17
https://www.bibliaonline.com.br/ara/is/1/16-17
2. Espiritismo – Joanna de Ângelis
(Psicografia de Divaldo Pereira Franco)
Editora LEAL – Obras Oficiais
https://www.editoraleal.com.br
Obras citadas:
-
Jesus e Atualidade
https://www.editoraleal.com.br/produto/jesus-e-atualidade/ -
O Homem Integral
https://www.editoraleal.com.br/produto/o-homem-integral/ -
Desperte e Seja Feliz
https://www.editoraleal.com.br/produto/desperte-e-seja-feliz/ -
Em Busca da Verdade
https://www.editoraleal.com.br/produto/em-busca-da-verdade/
Fundação Mansão do Caminho (Divaldo Franco)
https://mansaodocaminho.com.br
3. Judaísmo
Tanakh (Bíblia Hebraica) – Sefaria
https://www.sefaria.org/texts/Tanakh
-
Isaías 58:6–7
https://www.sefaria.org/Isaiah.58.6-7
Tikkun Olam – Enciclopédia Judaica
-
My Jewish Learning
https://www.myjewishlearning.com/article/tikkun-olam/
4. Islamismo
Alcorão Online – Quran.com
https://quran.com
-
Surata 13:11
https://quran.com/13/11 -
Surata 4:135
https://quran.com/4/135
5. Budismo
O Nobre Caminho Óctuplo – Acesso Didático
DALAI LAMA XIV – Ética para um Novo Milênio
-
Página oficial
https://www.dalailama.com -
Livro (Editora Martins Fontes)
https://www.martinsfontespaulista.com.br/etica-para-um-novo-milenio
6. Hinduísmo
Bhagavad Gītā Online
-
Sacred Texts
https://www.sacred-texts.com/hin/gita/
Capítulos relevantes:
GANDHI – Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade
-
Gandhi Heritage Portal
https://www.gandhiheritageportal.org -
Texto em inglês
https://www.gandhiheritageportal.org/autobiography
7. Filosofia e Ética Social
Hannah Arendt
-
Responsabilidade e Julgamento – Companhia das Letras
https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535906651/responsabilidade-e-julgamento -
Conceito da banalidade do mal (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
https://plato.stanford.edu/entries/arendt/
Paulo Freire
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Pedagogia do Oprimido – Editora Paz & Terra
https://www.editorapazeterra.com.br/pedagogia-do-oprimido -
Instituto Paulo Freire
https://www.paulofreire.org
Observação Ética Final
Todos os textos religiosos e filosóficos foram utilizados:
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sem proselitismo,
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sem citações extensas protegidas por direitos autorais,
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com foco moral, social e ético, em diálogo inter-religioso e humanista.
Todas as referências acima são provenientes de obras clássicas, editoras oficiais e portais reconhecidos no estudo do Espiritismo, do Evangelho e da espiritualidade universal.