Enfim, vou para o Inferno

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Enfim, vou para o Inferno

Disseram que eu vou para o inferno. Talvez estejam certos — mas não pelo motivo que imaginam. Entre fé, culpa e hipocrisia, esta reflexão confronta dogmas e provoca uma pergunta incômoda: afinal, quem realmente merece o fogo?

Perdi as contas de quantas vezes me mandaram ir para o inferno. E não sei por que insistem tanto nesse assunto. Afinal, há uma imensa chance de todos esses estarem lá quando eu chegar — ou até irem antes de mim.

Não é muito comum mandarem um padre para o inferno, ou outros líderes e representantes religiosos do Céu. Mas é perfeitamente admissível mandarem um policial para o inferno — quando não mandam “tomar naquele lugar”. E está tudo bem: vivemos um momento em que educação é mais raro do que ganhar na loteria.

Mas hoje foi um dia diferente. Quarta-feira de Cinzas para os católicos. E um familiar afirmou, com toda certeza, que eu irei para o inferno. Achei a afirmação curiosamente convidativa, quase atraente — mas não entendi o motivo exato.

Pensei que poderia ser pelos vários criminosos que levei à Justiça (não posso dizer que prendi, embora qualquer cidadão tenha esse direito e eu, o dever) e que foram liberados antes mesmo de me ouvirem. Pensei que fosse por não conseguir prender nenhum corrupto influente, nenhum grande traficante — apenas pessoas fracas e sem poder aquisitivo.

Será que deixei de ajudar alguém? Será que falhei na caridade? Será que deveria ter distribuído dinheiro aos mais necessitados?

Nessas horas, passa um filme em nossa mente. Pensei nos acidentes de trânsito em que não consegui salvar vidas. Nos estupros e roubos em que não pude estar presente. Afinal, Deus não me deu clarividência nem onisciência. Ainda assim, muitos insistem em me responsabilizar por tudo que ocorre ao meu redor.

Mas a afirmação tinha outro contexto — algo metódico, repetido há milênios pela sociedade: ir à igreja.

Não pode faltar à igreja na Quarta-feira de Cinzas. Não pode faltar aos domingos. Caso contrário, queimará no fogo do inferno eternamente.

Cada qual tem suas crenças, sua religião e sua fé. Não estou aqui para julgar ninguém. Cada religião possui seus rituais: uns usam imagens, outros fazem oferendas, outros bebem água fluidificada e aplicam passes curativos.

Estima-se que existam cerca de 4.300 religiões no mundo. Seria muita presunção — ou fanatismo — afirmar que apenas uma conduz à salvação.

Não existem apenas católicos, evangélicos, espíritas ou umbandistas. Há milhares de crenças espalhadas pelo planeta. Nós, que nascemos nus, sem saber falar, totalmente dependentes de nossos pais, começamos simples e ignorantes. Erramos centenas de milhares de vezes até alcançar alguma maestria na vida.

Dito isso: como acertar a “religião certa”?

Percebam que nem sempre é uma escolha pessoal. Seguimos, em regra, a orientação de nossos pais. Se eles escolhem a religião errada, pela lógica de alguns fanáticos, estariam condenando seus próprios filhos ao inferno.

Essa lógica — muitas vezes utilizada para angariar e manter o controle dos fiéis, seja social ou financeiramente — não parece compatível com a ideia de um Deus justo, bom e misericordioso.

Como escreveu Santo Agostinho:

“A medida do amor é amar sem medida.”

Um Deus infinitamente justo e bom condenaria Seus filhos a uma pena eterna apenas por não seguirem ritos específicos? Por faltarem a um culto dominical?

Não posso falar em nome de Deus — até porque Ele é algo que ainda não consigo compreender plenamente. Mas podemos seguir o modelo e guia de Jesus de Nazaré.

Jesus ensinou por meio do exemplo e das parábolas. Não cobrava por seus ensinamentos, não buscava luxo, não erguia símbolos de poder, nem pediu que criassem uma estrutura religiosa nos moldes que vemos hoje.

Historicamente, a maioria dos estudiosos concorda que Jesus viveu e morreu como judeu devoto. Sua mensagem central era o “Reino de Deus” — um conceito espiritual e ético — e não a criação de uma nova instituição.

Na Bíblia, lemos:

“O Reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deus está dentro de vós.”
(Lucas 17:20-21)

Teólogos debatem o significado da palavra ekklesia quando Jesus disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Igreja como instituição hierárquica? Ou como assembleia, comunidade de seguidores?

Já na perspectiva do Espiritismo, conforme Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, Jesus não veio fundar uma religião formal, mas exemplificar a Lei de Amor:

“Fora da caridade não há salvação.”

A estrutura religiosa seria uma construção humana posterior, destinada a organizar ensinamentos que são, em essência, universais.

Como também ensinou Francisco Cândido Xavier, pela psicografia atribuída a Emmanuel:

“A fé que não pode encarar a razão face a face, em qualquer época da Humanidade, é fé frágil.”

A verdade é que muitos estão presentes nos cultos e não ouvem. E, quando ouvem, não praticam. E há aqueles que jamais pisaram numa igreja e fazem muito mais bem do que muitos que frequentam todos os domingos.

A fé não é espetáculo. Não é exibicionismo. Não é show de milagres. Há quem faça muito mais sem jamais ser visto.

Se irei para o inferno, não sei.

Mas o inferno em que acredito é o da consciência.

E nele já estamos, quando agimos contra nossos próprios valores. Talvez a morte apenas intensifique aquilo que cultivamos internamente — algo semelhante ao retratado na série Lucifer, onde cada alma é prisioneira de sua própria culpa.

Não é um culto não frequentado, uma oferenda não realizada ou uma oração esquecida que o levará ao inferno.

Serão suas atitudes.

Serão seus pensamentos.

Como escreveu Marco Aurélio em suas Meditações:

“A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fazem dela.”

Pensamento é vida.

 

Nova Venécia, 18 de fevereiro de 2026.

 

Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda

 


 

📚 Referências Bibliográficas

  • BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de Lucas 17:20-21.

  • AGOSTINHO, Santo. Confissões.

  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Disponível em: https://www.febnet.org.br

  • XAVIER, Francisco Cândido (psicografia de Emmanuel). O Consolador. Federação Espírita Brasileira.

  • MARCO AURÉLIO. Meditações.