Entorpecidos e Dormentes do Corpo e da Alma

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Entorpecidos e Dormentes do Corpo e da Alma

Vivemos cercados por crises, violência e ilusões, mas poucos percebem que a maior batalha não acontece nas ruas — ela ocorre dentro da consciência humana, onde o corpo adormece e a alma, fascinada, perde o rumo do próprio destino.

Ao caminhar pelas cidades brasileiras, o cenário se repete de forma quase uniforme: casas deterioradas pela ação do tempo, ruas esburacadas, iluminação precária e um evidente abandono dos espaços públicos. Segundo dados do IBGE, mais de 35% dos municípios brasileiros apresentam problemas estruturais graves em vias urbanas, saneamento e manutenção básica, reflexo direto da má gestão e da destinação ineficiente dos recursos públicos.

No campo político, a sensação de desalento é ainda mais profunda. Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Transparência Internacional indicam que o Brasil figura, de forma recorrente, entre os países com maiores índices de percepção de corrupção no mundo. Parte significativa da população sente-se representada por agentes públicos envolvidos em esquemas ilícitos ou empenhados em projetos desconectados das reais necessidades sociais — muitos deles jamais executados ou abandonados após vultosos gastos.

Dentro de casa, o drama continua. O sonho da moradia própria tornou-se cada vez mais distante. De acordo com o IBGE, mais de 20% das famílias brasileiras vivem em imóveis alugados, e o valor médio dos aluguéis subiu acima da inflação nos últimos anos, pressionado por impostos elevados e políticas habitacionais ineficazes. Soma-se a isso a percepção generalizada de que os tributos pagos não retornam à sociedade em serviços de qualidade, sendo frequentemente desviados ou consumidos por obras superfaturadas, como apontam reiterados relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU).

Na área da saúde, a frustração é igualmente alarmante. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) revelam que mais de 50 milhões de brasileiros dependem de planos de saúde privados. No entanto, reclamações por negativa de atendimento, demora excessiva e descredenciamento de médicos crescem ano após ano. Muitos profissionais se recusam a atender por planos devido à baixa remuneração, criando um sistema marcado por desequilíbrios, interesses financeiros e, em alguns casos, práticas eticamente questionáveis.

A violência se impõe como pano de fundo dessa realidade. O Brasil registra, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 47 mil homicídios por ano, uma das maiores taxas do mundo. A população, após décadas de escolhas políticas equivocadas e omissões coletivas, recorre às forças policiais esperando soluções imediatas. Contudo, as próprias instituições policiais reconhecem a falta crônica de efetivo, equipamentos e investimentos. Estima-se que menos de 10% dos homicídios sejam plenamente esclarecidos no país, e uma parcela ainda menor resulta em condenações efetivas, segundo dados do Instituto Sou da Paz.

O sistema judiciário, por sua vez, enfrenta críticas severas. Embora a legislação alegue proteger garantias fundamentais, na prática, muitos a percebem como ineficaz contra o crime organizado, enquanto cidadãos comuns, quando enfrentam ou denunciam esquemas ilícitos, acabam punidos de forma rigorosa e desproporcional. Essa seletividade alimenta a sensação de que vivemos no país da injustiça institucionalizada.

Essa realidade se assemelha à conhecida metáfora do “sapo na panela”. Se jogado em água fervente, o sapo salta imediatamente. Mas se colocado em água fria que aquece lentamente, ele se adapta até morrer sem reagir. O Brasil parece ter ultrapassado esse ponto: a água já está escaldante, mas grande parte da sociedade permanece inerte, anestesiada.

Entorpecidos não apenas no corpo, mas também na alma, muitos buscam refúgio em drogas lícitas e ilícitas, no abuso de medicamentos, no álcool, em festas constantes, jogos e distrações vazias. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo abusivo de álcool no Brasil está entre os mais altos da América Latina, e os transtornos mentais relacionados à ansiedade e depressão crescem de forma acelerada, especialmente entre jovens e adultos.

O maior problema, contudo, talvez não seja a crise econômica, política ou institucional — mas a incapacidade coletiva de enxergar o que está diante dos próprios olhos. Perdemos, como sociedade, o senso de propósito, a noção de responsabilidade e o valor da consciência crítica. Onde há sinais claros de colapso, muitos insistem em enxergar conforto; onde existe um túmulo, passam a ver uma mesa de jantar.

A Dimensão Espiritual do Entorpecimento Coletivo

Sob a ótica do Espiritismo, esse estado de torpor moral e existencial não se limita aos fatores sociais, políticos ou econômicos. Ele se estende ao campo invisível da vida, onde se manifestam as leis espirituais que regem a consciência humana. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, esclarece que o Espírito, enquanto encarnado, pode cair em estados de ilusão, fascinação e subjugação, formas específicas de obsessão espiritual.

A fascinação, em particular, é uma das mais perigosas, pois o indivíduo passa a acreditar que está lúcido, esclarecido e no caminho correto, quando, na verdade, encontra-se influenciado por inteligências espirituais igualmente iludidas ou mal-intencionadas. Joanna de Ângelis, psicografada por Divaldo Pereira Franco, amplia esse entendimento ao afirmar que a fascinação não ocorre apenas por interferência externa, mas encontra terreno fértil nas paixões descontroladas, no orgulho intelectual, no ego inflado e no apego às ilusões materiais. O Espírito fascinado rejeita qualquer orientação contrária às suas crenças, fechando-se ao discernimento e à autocrítica.

Essa condição explica por que tantos indivíduos — e até sociedades inteiras — passam a normalizar o absurdo, relativizar o erro e justificar o injustificável. A obsessão espiritual, segundo Kardec, não é castigo divino, mas consequência natural da sintonia moral e vibratória. Espíritos afins se atraem, encarnados e desencarnados, formando verdadeiros círculos viciosos de pensamento e comportamento.


Corrupção Moral e a Inversão do Bem e do Mal

Um dos efeitos mais graves desse entorpecimento espiritual é a corrupção moral, entendida não apenas como desvio financeiro ou político, mas como a distorção da consciência ética. Joanna de Ângelis ensina que, quando o ser humano abandona os valores universais do amor, da responsabilidade e da fraternidade, passa a viver uma moral utilitarista, onde o certo é aquilo que convém e o errado é apenas o que gera punição.

Essa inversão leva à confusão entre bem e mal. O erro passa a ser exaltado como virtude; a honestidade, vista como ingenuidade; e a violência, justificada como necessidade. Emmanuel, espírito guia de Chico Xavier, alerta que “o mal não triunfa por sua força, mas pela ausência do bem”. Quando a consciência adormece, o Espírito deixa de ouvir a própria lei divina gravada em si, conforme ensina Kardec, e passa a agir sob impulsos imediatistas, egoístas e passionais.


Implicações Futuras Segundo o Espiritismo

Do ponto de vista espiritual, nada fica impune, mas tudo é educativo. O Espiritismo ensina que cada ação gera consequências que se estendem além da vida física. Chico Xavier, por meio de obras como Nosso Lar e Entre a Terra e o Céu, revela que Espíritos que abusam do poder, da inteligência ou da liberdade moral frequentemente despertam, após a desencarnação, em estados de profundo arrependimento e sofrimento íntimo, não por punição divina, mas pela lucidez tardia diante das próprias escolhas.

Divaldo Pereira Franco, inspirado por Joanna de Ângelis, e estudiosos contemporâneos como Haroldo Dutra Dias e Rossandro Klinjey, reforçam que a atual crise planetária é também uma crise de consciência. O planeta passa por um processo de transição moral, conforme anunciado em A Gênese, de Allan Kardec. Espíritos resistentes à renovação interior tendem a experimentar dores mais intensas, enquanto aqueles que buscam o autoconhecimento e a vivência do bem avançam com maior serenidade.

O desvio moral coletivo gera, portanto, consequências individuais e sociais, nesta e em futuras existências, até que o Espírito compreenda que não há crescimento sem responsabilidade, nem felicidade fora da lei do amor.


Contribuições de Outras Tradições Religiosas

Embora o Espiritismo ofereça uma explicação clara e racional sobre essas questões, outras tradições espirituais também contribuem para esse entendimento. No Cristianismo primitivo, Jesus advertia sobre a cegueira espiritual dos fariseus, que “guiam cegos”. No Budismo, fala-se da ignorância (avidya) como a raiz do sofrimento humano. No Hinduísmo, a ilusão (maya) mantém o ser preso ao ciclo de dor e renascimento. O Islamismo enfatiza a responsabilidade moral individual diante de Deus, e o Judaísmo ensina que o afastamento da ética conduz ao desequilíbrio coletivo.

Essas tradições convergem em um ponto essencial: o ser humano se perde quando se afasta da consciência, do autoconhecimento e da transcendência.


Mensagem de Consolação – O Evangelho Segundo o Espiritismo

Para encerrar, o Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, nos oferece uma mensagem de profunda esperança:

“Venho, como outrora, entre os transviados filhos de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como fez outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável, o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e levantar as ondas.”

Essa mensagem nos recorda que, apesar do entorpecimento coletivo, a luz jamais deixa de brilhar. O despertar espiritual é sempre possível, individual e intransferível. Enquanto muitos dormem, alguns já começam a abrir os olhos — e basta que cada consciência desperta cumpra sua parte para que a água escaldante volte, pouco a pouco, à temperatura da vida, da esperança e da regeneração.

 

Nova Venécia, 21 de dezembro de 2025.

 

Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda

 

Referências e Bibliografia Utilizada

Allan Kardec


Joanna de Ângelis / Divaldo Pereira Franco


Chico Xavier (Espíritos Diversos)


Autores Espíritas Contemporâneos


Outras Tradições Espirituais (Apoio Comparativo)


Dados Sociais e Contextuais (Parte Inicial do Texto)

 

Todas as referências acima são provenientes de obras clássicas, editoras oficiais e portais reconhecidos no estudo do Espiritismo, do Evangelho e da espiritualidade universal.